sexta-feira, 19 de agosto de 2016

VAI SO TREINANDO

*PRIMEIRO É A EL ADULTA CONTADO SUAS EXPERIENCIAS QUANDO PEQUENA*

Está sozinha nem sempre é ruim. Ainda mais quando as pessoas que estão com vocês sejam más. Ainda mais ainda quando essas pessoas são seus próprios pais.

Minha infância foi um pouco diferente das outras crianças. Eu cresci dentro do "espaço do medo" nome que eu mesmo dei para o local escuro e sombrio em que eu passei toda a minha infãncia, e agora pré-adolescência. Eu nunca fui a parques e nem frequentei a escola. Eu só tinha dois amigos, um era o Doutor Frank, pisciquiatra que trabalhava no espaço do medo, o outro era Ted, um ursinho que foi me dado por Doutor Frank. Ted era uma espécie de amuleto pra mim, ele sempre me acompanhava aonde quer que eu fosse, ele "via tudo".

Ter um ursinho como amigo era algo bem infantil, eu sei, mas eu me  sentia com mais coragem com Ted perto de mim, por mais que as coisas ruins não se afastassem eu sentia que ficava um pouco mais fácil de se lidar. Então com o passar dos anos eu não consegui me livrar do ursinho.

Doutor Frank me conhece desde quando eu nasci, ele é amigo do meu pai desde quando eram adolescentes, eles estudavam juntos. Diferente das outras pessoas que trabalhavam no espaço do medo, Doutor Frank era gentil e sempre me tratou bem. Ele já até chegou a brigar com o meu pai para que ele deixasse de fazer as suas loucas experiencias. Mas nada mudou, pelo contrário, meu pai chegou a o ameaçar e disse que se não  continuasse o ajudando com as suas experiencias ele iria acabar com sua vida. Então Doutor Frank continou. Eu não o culpava, era o trabalho dele, mas as vezes eu me perguntava porque Doutor Frank não saia e procurava um trabalho melhor. Ele era um bom Doutor, e bons doutores merecem trabalho bons e não algo como aquilo. E além do mais, meu pai era o seu amigo, o que mais ele poderia fazer de tão ruim com ele?

Bom, eu era ingênua. Naquela época não percebi o "acabar com a vida de alguém" realmente poderia significar. Até crescer e ver com os meus próprios olhos e entender.

Doutor Frank tinha um filho, Will, ele era gentil e engraçado, como o seu pai.

Eu gostava quando o Will ia me visitar, ele se tornou o meu primeiro amigo da minha idade.

Por mais que eu fosse "especial" Will não tinha medo de mim, pelo ao contrário, ele achava super legal e dizia que eu poderia me tornar uma super-heroína e salvar os humanos do perigo.

Bem que eu queria.

Se eu não fosse o próprio perigo.
 ********

-Vamos começar os testes - papai dizia do outro lado do vidro, ele estava inclinado na frente das mesas dos computadores aonde ficavam os cientistas e outras pessoas que trabalhavam mexendo com tudo aquilo. Eu não sabia o porque de ter tanta gente, mas deveria ser um trabalho complicado para precisar de tantas pessoas.

Doutor Frank estava no seu lado, segurando uma prancheta. Sua mão estava pronta para anotar todos os acontecimentos. Ele me sorriu gentil e me senti um pouco mais confiante para fazer aquilo, mesmo que essa acabasse logo que eu chegasse do outro lado.

Papai mantia o semblante franzido, e seus olhos passeavam por todas as telas a sua frente, monitorando cada computador com sua visão aguçada. Ele era bom para essas tarefas. Ele apontava o dedo para alguns botões coloridos e eu sempre tive vontade de clicar neles. Não para saber o que causavam -pois eu sabia muito bem o que acontecia com aquilo- e sim porque as cores eram bem chamativas e eu as achava bonita.

-Está pronta? - Pela primeira vez desde que chegamos naquela sala, papai olhou pra mim. Aquela pergunta rondou na minha cabeça por vários segundos. Eu estava pronta? Não sabia. Meus olhos pararam em Doutor Frank, e ele continuava me olhando de sua maneira gentil, e acenou com a cabeça. Ele sempre fazia isso, era pra garantir que tudo ficaria bem.

Olhei pro meu pai, ele parecia estar sem paciência e julgo eu que a causa seria a demora da minha resposta que não passou mais de um ou dois minutos. Suspirei tentando catar aquela pequena onda de coragem que me atingiu mais cedo e olhei novamente para o meu pai balançando a cabeça em concordância.

O jovem a sua frente apertou o botão amarelo. Era a minha cor favorita. Ela fazia o (pesquisar o nome do objeto) liberar o gás oxigênio para quando eu estivesse mergulhada. Aos poucos eu ia descendo pelo aparelho e mergulhava naquele tanque que para mim era grande demais.

Involuntariamente eu fechei os meus olhos, e a medida que eu ia esquecendo o mundo a minha volta, um outro mundo ia aparecendo.

Do outro lado era escuro, muito escuro. Não havia nenhuma iluminaria ou algo parecido para iluminar o local. Mas mesmo assim eu conseguia enxergar no outro lado. Era algo absurdo de se descrever. Lá era frio e eu me sentia muito mais sozinha do que quando eu estava do outro lado.

Aquela sensação de ter alguém perto observando havia me atingindo mais uma vez. Dei uma volta ao meu próprio redor mas não tinha nada. Andei um pouco a minha frente para encontrar algo, mas tudo o que tinha era a escuridão.

Aos passos que eu dava um barulho ia aumentando. Mais uma vez achei que pudesse ser algo, mas o barulho era o som da minha caminhada.

Eu estava tão assustada que continuava delirando.

Já tinha ido aquele lugar várias vezes, e me lembrava sim, da escuridão e do frio, mas sempre que eu retornava parecia que eu estava me esquecendo de algo, de alguem.